A floresta, o homem, os paradoxos


Ao observar o mapa da Amazônia Legal, é possível perceber que a floresta está sendo devorada lentamente pelas beiradas, do Maranhão até Rondônia, passando pelos estados de Tocantins, Pará e Mato Grosso. É o que os ambientalistas chamam de “arco do desmatamento”, e sua tendência é avançar em direção ao coração da região. O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) estima que 15% do verde da Amazônia Legal foi dizimado entre 1994 e 2009.

Ao contrário do que se imaginava, a principal causa das queimadas e do desmatamento na Amazônia não é a extração clandestina de madeira para comercialização, e sim a pecuária praticada sem qualquer critério e, não raro, à revelia da lei. Muitos empresários do gado, provenientes, sobretudo, do Sudeste do país, ocuparam grandes extensões de terras públicas amazônicas sem custo nenhum ou então as compraram a preços baixos de inocentes caboclos da região. Nessas áreas, criam e comercializam milhões de cabeças de gado – nos últimos 15 anos o rebanho triplicou. De acordo com o economista da USP Jacques Marcovitch, em seu livro A Gestão da Amazônia – Ações Empresariais, Políticas Públicas, Estudos e Propostas, “terras gratuitas ou sequer arrendadas ou baratíssimas rebaixam o preço da carne em todo o mercado interno e garantem lucro certo em qualquer hipótese aos numerosos frigoríficos locais”. Estima-se que 36% do gado bovino brasileiro é criado na Amazônia Legal e processado em 125 frigoríficos que funcionam lá mesmo. A soja se expande em outro bioma, no Cerrado do Centro-Oeste. Apenas cinco por cento das lavouras de soja brasileiras estão na Amazônia Legal.

O agronegócio na região amazônica nasceu de uma saga desbravadora – sobretudo de migrantes sulistas – iniciada entre o fim da década de 1960 e o início dos anos 1970. Sob o pretexto de que era preciso ocupar o território para afastar uma suposta ameaça de internacionalização, o governo militar incentivou pequenos produtores agropecuários com espírito de aventura a explorar a floresta para implantar ali suas lavouras e pastagens. A proposta era tentadora, já que as terras estavam sendo distribuídas gratuitamente. Assim começou a exploração da Amazônia: de forma desordenada, sem qualquer planejamento.

Era de esperar que os resultados de todos esses lucrativos negócios levassem a um clima não só de devastação ambiental mas também de impunidade, grilagem, trabalho escravo, conflitos sociais e criminalidade, inclusive nas cidades que se formaram de maneira caótica à medida que as clareiras eram abertas na mata. A violência tornou-se marca: das 100 cidades do Brasil com maiores taxas de homicídio 33 estão localizadas na região amazônica.

A exploração madeireira ilegal e a corrida pelos minérios também ajudaram a criar um ambiente de terra sem lei. De toda a madeira arrancada da floresta, perto de 80% é ilegal. O garimpo irresponsável de minérios, como cassiterita, bário e ouro, traz complicações ao ambiente, criando paisagens lunares onde antes havia mata, além de poluir a água dos rios.

A epopeia da ocupação amazônica também deixou de lado o nativo da floresta. Índios e caboclos passaram a dividir espaço com migrantes, que lá se instalaram aproveitando as oportunidades oferecidas e as estradas abertas para trazer o suposto desenvolvimento. Deu-se o contrário: os caminhos serviram para exterminar ainda mais a mata. A promessa recente do governo de asfaltamento de algumas rodovias federais – a Transamazônica, por exemplo, que liga João Pessoa, na Paraíba, a Lábrea, no Amazonas – causa arrepios nos ambientalistas, que preveem ainda mais devastação com a facilidade de acesso. Os municípios que nasceram ao longo desses ramais viários recebem a cada dia mais gente que não encontra atividade. Apenas 12% da população masculina amazônica tem hoje emprego fixo.

Os paradoxos se acumulam. Em uma região na qual a água doce é mais abundante que em qualquer outra parte do planeta, o homem da floresta sofre com a falta de água potável e de saneamento básico nas áreas urbanizadas. Nem 10% das cidades amazônicas possuem sistemas de redes de esgoto eficientes e 90% sequer aterros sanitários têm. Belém, a capital paraense, despeja nos rios 92 milhões de metros cúbicos de esgoto sem tratamento todos os anos. Além disso, as mais de 250 pequenas usinas termelétricas em funcionamento nos estados de Amapá, Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima queimam 6,3 milhões de litros de óleo todos os dias – uma energia poluidora que emite gases de efeito estufa. Seis milhões de toneladas de CO2 são jogadas na atmosfera a cada ano. As 18 hidrelétricas da região produzem uma energia mais limpa, com baixos e mesmo baixíssimos níveis de emissões de gases de efeito estufa.

Mesmo assim, os novos projetos de construção de mais três usinas geram controvérsias entre grupos políticos, ambientalistas, organizações não governamentais e o governo federal, no entanto. As de Jirau e Santo Antônio, em Porto Velho, estão previstas para entrar em operação em 2011, mas as obras de conclusão sofreram interrupções no início do ano por causa de disputas trabalhistas. Já a usina de Belo Monte, no Pará, enfrenta um vaivém de licenças ambientais concedidas e depois cassadas. Se for construída, como planejado, deslocará comunidades de índios e de ribeirinhos das margens do rio Xingu, no trecho próximo à cidade de Altamira. De acordo com o governo federal, a hidrelétrica é necessária para atender à crescente demanda por energia elétrica de um país em franco desenvolvimento como é o Brasil. O biólogo Philip Fearnside, entretanto, desconfia de Belo Monte. Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e estudioso dos planos governamentais de exploração energética pelas hidrelétricas, Fearnside acredita que a verdadeira vocação da usina é alimentar indústrias que exigem consumo intensivo de energia, como as de produção de alumínio bruto. Com isso, segundo o biólogo, o país exportará esses produtos primários, gerando empregos em outros países, enquanto os impactos socioambientais ficarão por aqui.

Mesmo com tantas obras de grande porte, pobreza, criminalidade, analfabetismo, alguns problemas de saúde ainda imperam na Amazônia Legal. Seus habitantes sofrem com o elevado número de casos de malária e leishmaniose. A quantidade de ocorrências de hanseníase é a maior do Brasil. Outro recorde deasanimador: a maior incidência de tuberculose está na região: são 46 doentes em cada 100 mil habitantes – 20% a mais que a média nacional.

Mais um paradoxo: mesmo com toda a riqueza natural, há um triste histórico de desnutrição, consequência da situação de descaso pelos povos da floresta e da infraestrutura precária nas regiões mais urbanizadas. Um recente estudo do Inpa com referência à condição nutricional das crianças em idade pré-escolar no Amazonas detectou que 10% das moradoras da capital amazonense são desnutridas. No interior do estado, esse percentual sobe para 23%. A média de famintos nessa faixa etária no país inteiro não ultrapassa 7%.

Esse é o cenário atual – resquício de um modelo de desenvolvimento a qualquer preço, arcaico e predador. Ele é um entrave ao desenvolvimento sustentável, à proteção da floresta e ao bemestar de todos os seus habitantes.

Autor: Afonso Capelas Jr.
Fotografia: Rodrigo Baleia
Fonte: National Geographic Brasil
Original: http://bit.ly/p2sqhV


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