ROMÉNIA: Armazenamento de resíduos, um assunto radioativo



A Cernavoda, perto do Mar Negro, que funciona, desde 1996, a única central nuclear do país. Contudo, a instalação, nas proximidades, do centro de armazenamento, destinado a recolher os resíduos radioativos, preocupa os habitantes, que receiam as consequências de uma possível catástrofe.

É uma aldeia vulgar da Roménia profunda, com estradas poeirentas, sem rede de distribuição de água e sem iluminação pública digna desse nome. Situada no sudeste do país, perto do Mar Negro, Saligny prepara-se para receber, no seu subsolo calcário, os resíduos radioativos da central nuclear de Cernavoda, localizada a cerca de 10 quilómetros.

Em 2 de agosto, a Câmara deu luz verde ao projeto da Agência Nuclear para os Resíduos Radioativos (ANDR) mas a recordação do acidente na central japonesa de Fukushima atormenta os camponeses. “Temos uma verdadeira bomba ao lado da nossa aldeia”, protesta Florin Gheorge, habitante de Saligny. “Se acontecer alguma coisa aos dois reatores de Cernavoda, vai ser pior do que no Japão.”

O presidente da Câmara, Gabriel Tatulescu, não partilha as preocupações dos aldeãos. “Vamos beneficiar de muitas vantagens: estradas, água corrente, rede de esgotos e iluminação”, sublinha. “Não vamos ceder facilmente e, sim, obter o máximo de equipamentos para a aldeia. De qualquer modo, tenciono organizar um referendo na aldeia.”

Cernavoda produz 20% da energia do país

Apesar da sua pobreza, a aldeia tem orgulho no seu nome e na sua história: Anghel Saligny, pioneiro de engenharia civil do fim do século XIX construiu, em Cernavoda, uma ponte sobre o Danúbio, que conservou o esplendor do passado. O seu pai, Alfred Saligny, era um francês vindo da Alsácia, que se instalara na Roménia como pedagogo. O filho viria a revolucionar a construção de pontes no país, antes mesmo de ser nomeado ministro das Obras Públicas, em 1910. Nessa época, a Roménia registou um desenvolvimento económico considerável, que seria travado, depois da Segunda Guerra Mundial, com a instauração do regime comunista.

Foi na cidade de Cernavoda que o ditador Nicolae Ceausescu decidiu construir uma central nuclear, nos anos 1980. Ao contrário dos líderes de outros países do bloco comunista, desejosos de produzir a sua própria energia graças ao nuclear, Ceausescu recusou qualquer cooperação com Moscovo e voltou-se para os canadianos e para a tecnologia do tipo Candu, que assenta em urânio não enriquecido e na água pesada sob pressão.

A mais longo prazo, essa tecnologia poderia permitir à Roménia dotar-se da bomba atómica. Mas a queda do regime comunista, em 1989, e a execução de Nicolae Ceausescu afastaram essa possibilidade.

Em Cernavoda, as instalações da central, previstas para cinco reatores, foram abandonadas, enquanto a Roménia registava uma longa transição económica e política dificultada pelas suas carências. Foi só em 1996 que o primeiro dos cinco reatores entrou em funcionamento. Seguiu-se o segundo, em 2007. Com uma potência de 750 mega watts cada, estes asseguram hoje 20% das necessidades energéticas do país.

Os resíduos mais radioativos são guardados na própria central mas os outros produtos contaminados têm vindo a acumular-se e o seu armazenamento passou a ser um problema. A ANDR percorreu 37 aldeias em volta de Cernavoda, em busca de um local apropriado para receber os resíduos da central. Os peritos concluíram que a aldeia de Saligny reunia todas as condições requeridas. Foi escolhido um terreno de cerca de 40 hectares para construir, em três níveis, 64 compartimentos em betão. A abertura do local está prevista para 2019. A sua capacidade permitir-lhe-ia receber resíduos radioativos até… 2110.

A primeira fase do projeto terá uma dotação de 180 milhões de euros e o Estado prevê um orçamento total de 340 milhões para construção do depósito subterrâneo. “Precisamos do acordo da população e vamos organizar debates”, garante o diretor da ANDR, Ion Nastasescu. “As pessoas têm que compreender que se trata de um projeto sólido e seguro. Não vamos legar um depósito perigoso às gerações futuras.”

Porta aberta para a China

Contudo, o projeto não reúne unanimidade na aldeia. “Não estou de acordo”, afirma Mircea Ion, habitante local. “Já temos problemas que cheguem com a central. As nossas árvores já não dão frutos, as nossas hortas foram destruídas e os nossos filhos sofrem. Que vão para o raio que os parte com o depósito radioativo!”

Apesar da catástrofe de Fukushima, as autoridades romenas não querem voltar atrás no que se refere ao vasto programa nuclear previsto para as próximas décadas. O Governo romeno tenciona construir dois novos reatores em Cernavoda, graças a uma parceria público-privada no montante de 4 mil milhões de euros.

Mas, em janeiro, três das cinco empresas que se tinham associado ao projeto – a GDF-Suez, a alemã RWE e a espanhola Iberdrola – dissociaram-se dele. Entretanto, Bucareste abriu a porta a investidores exteriores à União Europeia. A empresa chinesa Guangdong e o consórcio coreano Korean International Nuclear já manifestaram o seu interesse.

A prazo, a Roménia pretende dotar-se de uma segunda central, no centro do país. Os futuros resíduos seriam também armazenados em Saligny. A oposição dos habitantes talvez seja suficientemente forte para fazer recuar o Governo.

Autor: Mirel Bran
Fonte: Le Monde / Presseurop
Original: http://bit.ly/qDk12w


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