Estudo independente ataca cépticos e confirma que a Terra está mesmo mais quente



O próximo passo para estes cientistas é estudar o que está a acontecer com a temperatura nos oceanos

A temperatura da Terra aumentou, em média, 1ºC desde a década de 1950, diz um grupo de cientistas americanos que quis responder às dúvidas dos mais cépticos e aquecer o debate climático, em lume brando desde o “climategate” em 2009.

A temperatura média da superfície terrestre aumentou 1ºC desde meados da década de 50, concluiu o chamado Grupo de Berkeley, dez cientistas da Universidade da Califórnia, em quatro estudos científicos independentes, divulgados ontem à noite. “O aquecimento global é real”, escreve, em comunicado, o grupo coordenado por Richard A. Muller, professor de Física daquela universidade, ele próprio um antigo crítico.

A investigação, que durou dois anos, usou novos métodos estatísticos para analisar mais de mil milhões de dados recolhidos em 40 mil estações de medição meteorológicas, espalhadas pelo planeta. O principal objectivo não era descobrir a causa das alterações climáticas mas perceber se há, ou não, um aquecimento global, e responder às dúvidas levantadas pelos cépticos, relativas ao efeito das ilhas urbanas de calor, má qualidade das estações de medição e a pouca transparência nos dados e nos métodos.

“Quando começámos o nosso estudo sentimos que os cépticos levantavam questões legítimas e não sabíamos o que iríamos encontrar”, contou Muller num artigo publicado hoje no jornal “Wall Street Journal”. As certezas climáticas foram especialmente abaladas em Novembro de 2009, quando foram publicados mil emails trocados nos últimos 13 anos pelos cientistas da Universidade inglesa de East Anglia, sem que estes tivessem conhecimento. Os críticos disseram que os emails eram a prova de que os investigadores tinham manipulado dados estatísticos para provar a existência das alterações climáticas.

“A nossa maior surpresa foi que estes novos resultados estão em linha com os valores publicados por outras equipas nos Estados Unidos e Reino Unido” e amplamente criticados, diz Muller, referindo-se aos trabalhos do britânico Hadley Center, e das agências norte-americanas NASA (agência espacial norte-americana) e NOAA (agência norte-americana oceanográfica e atmosférica). Na verdade, os investigadores chegaram a um gráfico de temperaturas muito semelhante. Além disso, concluíram que o efeito das cidades enquanto pontos de calor “não contribui de forma significativa para o aumento das temperaturas”, porque “representam menos de 1% da superfície terrestre”, escrevem em comunicado.

Outra das conclusões do estudo foi que um terço das estações de medição de temperatura registou um arrefecimento nos últimos 70 anos. “Mas dois terços registaram um aquecimento”, escrevem. Segundo Robert Rohde, um dos autores do estudo, “o grande número de locais onde se registou um arrefecimento pode ajudar a explicar algum do cepticismo sobre o aquecimento global”. “O aquecimento global é demasiado lento para os humanos o sentirem directamente e se o vosso meteorologista local vos diz que as temperaturas são as mesmas ou são mais baixas do que eram há 100 anos, é fácil acreditar nele”, acrescentou. Mas para ter a fotografia das temperaturas “é preciso termos não dezenas mas milhares de estações de medição”, alertou.

O Grupo de Berkeley concluiu também que as estações de medição consideradas “más” mostraram o mesmo padrão de aquecimento do que as consideradas “boas”.

“Estes estudos reduzem a incerteza nos registos das temperaturas e dão-nos a confiança de que os relatórios anteriores eram certos e de que hoje vivemos num período excepcionalmente quente”, disse Muller ao “New York Times”.

No entanto, os resultados ainda não foram submetidos à revisão pelos pares e ainda não foram publicados. O grupo, que divulgou o seu trabalho num site na Internet, “quis tornar públicos os resultados preliminares para incentivar um escrutínio mais rápido por parte dos cidadãos e só depois os submeteu a avaliação dos pares. Contactada pelo PÚBLICO, Elizabeth Muller, uma das autoras dos estudos, salientou que, precisamente, “o maior contributo destes estudos foi o termos publicado os dados e os programas online, permitindo a qualquer pessoa examiná-los directamente, tentar reproduzi-los ou alterar a nossa análise”. “O aquecimento global é um tópico tão importante que qualquer cidadão devia poder avaliar a ciência por detrás dele”, acrescentou.

O próximo passo para estes cientistas é estudar o que está a acontecer com a temperatura nos oceanos.

E se o “climategate” aconteceu nas vésperas da cimeira climática de Copenhaga, em 2009, estes estudos surgem a poucos meses da cimeira climática de Durban, na África do Sul, onde o mundo vai discutir novas metas de redução de emissões de gases com efeito de estufa e formas de cooperação e financiamento. Elizabeth Muller admitiu ao PÚBLICO que o Grupo de Berkeley “espera conseguir dar às pessoas um ponto de partida comum para as negociações em Durban e mesmo depois”. “Respondemos às maiores preocupações dos cépticos e, ainda assim, concluímos que a superfície terrestre está a aquecer. Espero que isto possa ajudar a levar a paz para o debate”.

Autor: Helena Geraldes
Fotografia: David Gray / Reuters
Fonte: Ecosfera – Público
Original: http://bit.ly/p0QMSW


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