Análise – Novo milho da Dow: ‘bomba’ ou sonho do agricultor?


Um novo milho desenvolvido pela DowAgroSciences pode fornecer a resposta às orações de agricultores norte-americanos para uma epidemia persistente de super ervas daninhas. Ou pode desencadear uma enxurrada de químicos perigosos que tornará as ervas ainda mais resistentes e prejudicará outros cultivos importantes.

Ou, pode ser ambos.

O “Enlist”, em estágio final de aprovação, se tornou o mais recente foco de debates sobre os riscos e recompensas da tecnologia agrícola. Com prazo para comentários públicos sobre a proposta finalizando nesta semana, mais de cinco mil pessoas e grupos já opinaram. A Dow Agrosciences, uma unidade da Dow ChemicalCo, espera ter aprovação do produto este ano para que siga para os cultivos em 2013.

O milho em si não é o que está em questão, e sim o potente herbicida composto 2,4-D.

A engenharia do milho foi concebida de forma a aguentar doses desse novo herbicida desenvolvido pela Dow, que contém um composto comumente usado no tratamento de gramados com ervas de folhas amplas e para a limpeza de campos antes do plantio de trigo e cevada.

O Enlist é o primeiro de uma série de novos cultivos tolerantes a herbicidas que visam lidar com o surgimento de ervas que sufocam as plantações. Elas desenvolveram resistência ao popular Roundup, herbicida da rival Monsanto. A série faz parte de um novo arsenal agrícola, que segundo os defensores, são essenciais para o cultivo suficiente de alimentos para uma população crescente.

Mas, enquanto o 2,4-D tem um longo histórico de uso, a natureza volátil do químico preocupa, pois o vento, altas temperaturas e umidade podem levar à migração de herbicidas tradicionais, desencadeando o caos em cultivos, jardins e árvores muito longe da sua aplicação original, desprotegidos do agente invisível.

Ambientalistas estão pressionando o governo a parar antes de abrir as portas para o que dizem poder ser uma decisão destrutiva.

Os oponentes incluem alguns agricultores especializados que temem que o herbicida 2,4-D possa causar danos generalizados a cultivos que não passaram por um processo de engenharia para serem tolerantes a ele. O componente é tão potente que o seu uso é rigidamente restrito em algumas áreas e em determinadas épocas em alguns estados.

“Esta é uma questão elementar para a agricultura”, comentou John Bode, advogado de uma coalizão de agricultores e empresas alimentícias que buscam restrições ou a rejeição dos planos da Dow.

“Quantidades massivas do 2,4-D podem causar grande mudanças, ameaçando especialmente cultivos a milhas de distância”, disse Bode, que foi assistente da Secretaria de Agricultura na administração Reagan.

Os interesses financeiros também são altos. A Dow prevê um valor de bilhões de dólares para esta linha de produtos que até agora é o maior competidor do Roundup e das sementes modificadas “Roudup Ready” da Monsanto. A Dow espera expandir o Enlist para cultivos de soja e algodão.

Onde, no passado, o Roundup matou as ervas daninhas facilmente, especialistas dizem que agora, mesmo o uso pesado do herbicida com glyphosato não consegue mais matar as “super ervas”.

Novo herbicida dribla a dispersão

Alguns cientistas apoiam o Enlist. No sul do Illinois, um dos principais cinturões produtores de milho, infestações da erva invasora chamada ‘waterhemp’ dobraram a cada ano ao longo dos últimos três anos, segundo Bryan Young, cientista da Universidade de Southern Illinois.

Oficiais da Dow dizem que estão cientes do problema da volatilidade e propagação do 2,4-D e que o novo herbicida foi formulado para reduzir estes fatores dramaticamente. Eles alegam que se os agricultores utilizarem a nova versão do 2,4-D adequadamente, a dispersão será reduzida em cerca de 90%, e que testes mostram que o novo produto tem “volatilidade muito baixa”.

Até mesmo muitos oponentes do novo herbicida dizem que é melhor do que os rivais genéricos que usam o 2,4-D. Mas eles ponderam que a versão da Dow será tão cara que muitos agricultores provavelmente comprarão genéricos mais baratos para usar no milho tolerante ao 2,4-D.

A Dow reconhece isto, mas diz que trabalhará para atrair os agricultores para sua marca.

“Acho que nunca será garantido, mas estamos fazendo o possível para tentar incentivar e educar as pessoas”, comentou Tom Wiltrout, líder de estratégias globais para sementes da Dow.

David Simmons, um agricultor de Indiana que cultiva soja e milho, mas também dirige um vinhedo, disse que as vinhas jovens sofreram danos significativos coma dispersão do 2,4-D aplicado em seus vizinhos, forçando-o pedir ressarcimento das suas seguradoras.

Devido aos notórios efeitos da dispersão, oponentes têm demandado que alguma forma de fundo de indenização seja estabelecida para pagar as perdas das fazendas prejudicadas. A Dow não defende esta salvaguarda.

Grandes interesses

Oponentes inundaram o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) com petições e demandas pela rejeição do novo milho da Dow ou por um regulamentação rígida antes que o uso do 2,4-D seja ampliado para milhões de acres no coração agrícola norte-americano. Mais de 90 milhões de acres de milho serão plantados apenas em 2012.

Na semana passada, a coalizão ‘Salve Nossos Cultivos’, representando mais de dois mil produtores norte-americanos, entrou com petições legais no USDA e na Agência de Proteção Ambiental demandando que o governo avalie os planos da Dow mais de perto. O grupo diz que poderá entrar com um processo judicial para barrar o novo milho.

Steve Smith, diretor de agricultura da Red Gold, maior processadora de tomates enlatados do mundo, chamou a questão do 2,4-D de uma “bomba relógio”.

“Somos todos produtores, e pessoas que não têm problemas com novas tecnologias. Mas prevemos que este novo produto terá efeitos colaterais nos quais acreditamos que as pessoas não tenham pensado adequadamente”, comentou Smith.

Outros temem que o Enlist e o 2,4-D serão apenas o começo de uma nova onda de químicos agrícolas perigosos. A gigante BASF e a Monsanto pretendem lançar até o meio da década cultivos tolerantes a um mix dos químicos dicamba e glyphosato.

Este crescente uso de químicos apenas trará mais resistência das ervas daninhas nos próximos anos, alertam cientistas e ambientalistas.

“É uma queda de braço química”, disse Andrew Kimbrell, um advogado do Centro para Segurança Alimentar contra os novos sistemas de plantio. “É um cenário assustador. Não poderemos fazer nada com estas ervas além de usar machados”.

Ao invés do uso de mais químicos para o plantio de milho no mesmo campo ano após ano, os agricultores norte-americanos deveriam estar fazendo mais rotação de culturas, uma técnica que comprovadamente desafia a resistência das ervas daninhas, defendem muitos cientistas.

A Dow diz que apesar do Enlist ser a melhor opção atualmente, não será a única em longo prazo para a resistência das ervas.

“Não existe saída mágica”, comentou Joe Vertin, chefe global da Dow para o Enlist.

Traduzido por Fernanda B. Muller, Instituto CarbonoBrasil

Fonte: Carbono Brasil
Original: http://bit.ly/IPGNGy


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