Descobertas em Portugal novas populações da rara borboleta-azul




Foto: DR

Centenas de pequenas borboletas- azuis invadem os lameiros do Alvão entre Julho e Agosto. Durante vários meses, estes animais viveram debaixo da terra, em formigueiros, sob a forma de lagartas. Agora estão prontas para voar. Em mais locais do que se julgava, descobriram investigadores portugueses.

Portugal é o limite-sul da borboleta-azul (Phengaris alcon, anteriormente conhecida como Maculinea alcon), que se espalha pela Europa. Até recentemente, a distribuição populacional da rara e ameaçada borboleta era limitada ao Parque Natural do Alvão. Em 2011, foi encontrada uma nova população na serra de Montemuro e criada uma micro-reserva com 3500 metros quadrados para a ajudar a sobreviver.

Neste Verão, os trabalhos de campo revelaram novas surpresas. “Durante os trabalhos de preservação dos lameiros e das turfeiras [no âmbito do projecto Life Higro] foram encontradas novas populações de borboleta-azul em Afonsim, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, e na serra d”Arga”, disse ao PÚBLICO Paulo Lucas, do Grupo de Trabalho de conservação da natureza da Quercus, responsável pela iniciativa.

Esta descoberta foi, na sua opinião, uma boa notícia. “O projecto, que começou em Setembro de 2010 e terminará em Dezembro de 2013, não é dirigido unicamente à borboleta-azul, mas pretende conservar e restaurar habitats prioritários, reconhecidos pela União Europeia, e que estão em perigo de desaparecer com o aumento das temperaturas”, contou. “Mas a borboleta-azul é extremamente importante. É um indicador fundamental da boa qualidade destes habitats”, acrescentou.

Por enquanto, ainda não se conhece a densidade populacional da borboleta-azul nestes novos núcleos. Mas Paulo Lucas garantiu que todos estão protegidos. “As novas populações de borboleta foram encontradas em terrenos que já estão contratualizados com as comunidades locais, no âmbito do Higro, e onde estamos a fazer várias medidas de conservação”, referiu. Naqueles terrenos está a ser feito o controlo de arbustos, a instalação de vedações amovíveis, além de serem criadas estruturas para reter a água e restaurar a hidrologia natural e de promover o pastoreio de gado bovino. “É fundamental mantermos o pastoreio de gado para não deixar a vegetação crescer muito, para mantê-la num estado herbáceo, onde existe uma grande diversidade biológica” e favorável à borboleta-azul, explicou Paulo Lucas.

Patrícia Garcia-Pereira, investigadora do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, esteve no Verão no campo com a sua equipa a fazer a contagem de ovos e de adultos na serra de Montemuro. “Estava tudo cheio de borboletas”, contou, entusiasmada. “Agora com a descoberta dos novos núcleos, a área de distribuição desta espécie é maior do que aquilo que se pensava”, espalhando-se para o litoral, acrescentou. Depois das contagens das borboletas feitas neste Verão, “constatámos que a espécie está de boa saúde”. Na verdade, Portugal “terá as maiores populações de borboleta-azul-das- turfeiras do mundo”.

Contudo, esta é uma espécie que não tem o futuro garantido. “A borboleta-azul ainda não faz parte da Lista Vermelha das Espécies de Borboletas Ameaçadas da Europa. Mas esta lista está actualmente a ser revista e a borboleta-azul deverá ser incluída, com um estatuto de conservação prioritário”, explicou a investigadora, também do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal.

Todos os anos, Paula Seixas, investigadora que estuda a espécie desde 2003 na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), sai para o campo em Lamas de Olo, no Parque Natural do Alvão, para monitorizar as borboletas. “Esta é uma população francamente elevada”, com uma estimativa de 6200 borboletas a voar, segundo o cálculo feito com bases em modelos matemáticos.

Ainda assim, este foi um ano atípico. “Normalmente, as borboletas voam de 5 de Julho a 10 Agosto. Mas este ano, só vimos a primeira borboleta a 15 de Julho. Além disso, contrariamente ao que costuma acontecer, nos primeiros dias vimos poucos indivíduos e o pico no número de animais aconteceu no final de Julho, 10 a 15 dias mais tarde. Isto nunca tinha acontecido”, salientou Paula Seixas. A sua equipa estava preocupada com os efeitos de um clima atípico no ciclo de vida das borboletas. “Notámos que a floração das plantas da qual depende a borboleta, a genciana-das-turfeiras, estava muito atrasada. Mas parece que as borboletas sabem quando estão reunidas as condições para começar a voar. Foram atrasando a sua chegada, enquanto ainda não havia botões florais”, explicou.

De momento, está a ser preparada pelo Tagis uma estratégia de gestão para o habitat da borboleta-azul, promovendo a criação de corredores ecológicos entre os vários núcleos. Além dos trabalhos de investigação sobre a espécie, está prevista a reintrodução da borboleta na Campeã, projecto da Câmara de Vila Real no âmbito do Programa de Preservação da Biodiversidade do concelho. Aquela foi a zona onde a espécie foi encontrada pela primeira vez, em 1949. Mas de onde já desapareceu. “Os campos foram transformados em milheiral, batatal e os cursos de água naturais já não existem. Mas agora estão novamente disponíveis” e poderão ser uma oportunidade para as borboletas-azuis, trazendo de volta um campo rico em vida selvagem, disse Paula Seixas.

Autor: Helena Geraldes
Fonte: Ecosfera – Público
Original: http://goo.gl/XK8BS


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